Walter Benjamin e a mimética dos humanos e dos signos

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Bertolt Brecht e Walter Benjamin se desafiando no xadrez durante o verão de 1934 na Dinamarca. Foto: Brecht-Archiv

Encontrei o livro “Humanismo e Comunicação de Massa” nas minhas pesquisas. É uma coletânea de textos – meio enganosa porque não traz quase nada sobre humanismo – de seis autores da Escola de Frankfurt. Publicada na década de 1970, a organização e tradução é de Vamireh Chacon, autor do primeiro artigo sobre o grupo de pensadores alemães. O que mais me interessou foi o texto de Walter Benjamin chamado “A capacidade mimética”.

Nele, Benjamin escreve sobre a habilidade humana de mimetizar, de imitar, de copiar. Essa capacidade é característica da maior parte das brincadeiras de criança, que não são apenas simulam pessoas mas também animais e objetos como trens e carros. Homens e mulheres podem produzir semelhanças porque reagem as similitudes existentes na natureza e no mundo. Por isso, o autor percebe uma historicidade dessa prática mutável no transcorrer do tempo. É nessa capacidade que se baseia o idioma. Para Benjamin, o signo não é arbitrário (como diz a linguística saussuriana), não é a toa que a representação ganhou aquela forma. O que faz um bom sentido se pensarmos na evolução do alfabeto desde o Egito antigo, com a letra “A” (aleph) sendo um desenho virado de uma cabeça de boi.

Com base nesses remotíssimos tempos do surgimento da escritura, a defesa é de que é necessário pensar que o processo mimético, expressado no ato da escrita, era da maior importância para o gesto de escrever. Isso da semelhança recorda até “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, mais famoso ensaio dele. Publico abaixo o texto, que encontrei em pdf aqui e digitalizei. O livro eu doei pra biblioteca, já que não vou usar mesmo.

A capacidade mimética (Ensaio anexado à coleção Schriften, Surhkamp, Frankfurt a. M., 1955) por Walter Benjamin

A Natureza engendra similitudes. Basta pensar no mimetismo animal. Contudo, a mais elevada aptidão de produzir similitudes pertence, tipicamente, ao Homem. O dom de perceber similitudes, ao qual possui, não é senão o rudimentar resíduo da obrigação, ao mesmo tempo violenta, de assimilar-se e de conduzir-se de acordo.
Mas esta aptidão tem uma História, tanto no sentido filogenético, quanto no ontogenético. No que diz respeito a êste último, sua escola se situa, em vários sentidos, no jôgo. O jôgo infantil acha-se completamente saturado de condutas miméticas e seu campo não se encontra, de nenhum modo, limitado ao que um indivíduo pode imitar doutro. A criança não só brinca de comerciante ou professor, bem como também de moinho de vento e locomotiva. Que utilidade é extraída, desta educação, pela capacidade mimética?
A resposta pressupõe a compreensão do significado filogenético da capacidade mimética. Em favor do qual não basta pensar no que hoje entendemos por conceito de similitude. Sabe-se que era bem maior o círculo vital que num tempo aparecia como governado pela lei da similitude: tal lei governava tanto o microcosmo, quanto o macrocosmo. Porém essas adequações naturais só adquirem toda sua força quando se sabe que sejam, na sua Totalidade, estimulantes e reagentes da capacidade mimética, a aquelas correspondentes no Homem. Além disto é preciso levar em conta que nem as forças miméticas, nem os objetos miméticos, permaneceram inalteráveis ao longo dos milênios. Tem-se que supor, pelo contrário, que a capacidade de produzir similitudes — por exemplo, nas danças, cuja função mais antiga é exatamente esta — e, portanto, também de reconhecê-las, transformou-se durante a História.
A direção desta mudança parece determinada por um crescente enfraquecimento da capacidade mimética. Desde que é óbvio que o Mundo perceptivo do Homem moderno não mais contém senão escassos resíduos daquelas correspondências e analogias, mágicas, familiares aos povos antigos. O problema consiste, aqui, em determinar se se trata da decadência desta capacidade ou, pelo contrário, da sua transformação. A propósito do rumo no qual esta poderia suceder, algo se pode deduzir da Astrologia, embora indiretamente.
Tem-se que levar em consideração o fato que, em épocas mais remotas, deviam figurar as ocorrências celestes, também entre as consideradas imitáveis. Nas danças e noutras atitudes culturais, podia-se efetuar uma imitação e utilizar uma similitude dêste tipo. E se o gênio mimético era de fato uma fôrça determinante da vida dos povos antigos, não surge difícil de imaginar que devia se levar em consideração ao recém-nascido como dotado da plena posse desta capacidade e, sobretudo, capaz de perfeita adequação à atual configuração do Cosmo.
O recurso à Astrologia pode proporcionar um primeiro sinal sôbre o que aparece necessário entender por conceito de similitude imaterial. É verdade que em nossa realidade não mais existe aquilo que permitia, ao mesmo tempo, falar sôbre esta similitude e, principalmente, evocá-la. Mas também nós possuímos uma regra que pode ajudar-nos a esclarecer o conceito de similitude imaterial, pelo menos em parte. Trata-se da regra do idioma.
Sempre se reconheceu, à capacidade mimética, uma certa influência no idioma. Contudo, isto ocorreu sem sistema, sem que se pensasse, a propósito, numa importância mais remota ou, muito menos, na História da capacidade mimética. Tais considerações permaneceram, em especial, limitadas estritamente ao campo normal e sensível da similitude. Assim se concedeu um lugar ao comportamento imitativo, sob o nome de onomatopéia, na formação do idioma. Se ele não fôr, claramente, um convencional sistema de sinais, sempre será necessário recorrer a idéias que se apresentem, em sua forma mais rudimentar, ao modo de explicações onomatopaicas. Trata-se de ver se podem ser desenvolvidas e adequacionadas a uma compreensão mais profunda.
“Tôda palavra e todo idioma — já se disse — são onomatopaicos”. É difícil determinar quanto, embora se trate do programa implícito nesta proposição. O conceito de similitude intelectual proporciona, contudo, algumas indicações. Isto é, ordenando palavras de diversos idiomas que signifiquem a mesma coisa, em redor deste significado como seu centro, seria necessário indagar como tôdas elas — que podem, com frequência, não dispôr entre si de qualquer similitude — são similares a aquêle significado, no seu centro. Todavia, esta espécie de similitude só é ilustrada pelas relações entre as palavras, que designam a mesma coisa, em diversos idiomas. Bem como, em geral, a investigação não pode limitar-se à palavra escrita. Tal similitude relaciona-se, aliás, com a palavra escrita. Por conseqüência, resulta sintomático que a palavra escrita esclarece, em muitos casos talvez mais manifestamente que a falada, a natureza da similitude imaterial, mediante a relação da sua forma escrita com o objetivo expresso. Em síntese: a similitude imaterial fundamenta as tensões não só entre o dito e o entendido, quanto também entre o escrito e o entendido, bem como entre o dito e o escrito.
A grafologia ensinou a descobrir imagens, nas escrituras, que nelas esconde o inconsciente de quem escreve. É preciso pensar que o processo mimético, assim se expressando na atividade de quem escreve, era de máxima importância para o escrever, nos remotíssimos tempos em que surgiu a escritura. Esta se converteu, dêste modo, ao lado do idioma, num arquivo de similitudes insensíveis, de correlacionamentos imateriais.
Contudo, tal aspecto do idioma e da escritura não caminha isolado, isto é, de maneira semiótica. Tudo o que é mimético, no idioma, só pode revelar-se numa espécie de apôio. Este é o elemento semiótico. Dêste modo, o nexo significante das palavras e das proposições é o portador, só quem acende a similitude, num raio. Porque seu engendramento, por parte do Homem, bem como da percepção que dela tem, está confiada, com freqüência e principalmente no mais importante, a um raio. Passa de repente. Não é impossível que a rapidez no escrever e no ler fortaleça a fusão do semiótico e do mimético na área do idioma.
“Ler o que nunca foi escrito”. Tal leitura surge anterior a todo idioma, é o mais antigo: leituras das vísceras pelos oráculos, das estréias ou das danças. Mais tarde se constituíram etapas intermediárias duma nova leitura, rúnica e hieroglífica. É lógico supor que foram tais fases, mediante as quais aquela capacidade mimética, que havia sido a base da praxis, efetuou sua oculta entrada na escritura e no idioma. A tal ponto o idioma seria a etapa suprema do comportamento mimético e o mais perfeito arquivo de similitudes imateriais: um ambiente ao qual emigraram, sem resíduos, as mais antigas forças de produção e recepção miméticas, até liquidar as forças mágicas.

BENJAMIN, Walter. A capacidade mimética. In: CHACON, Vamireh. (Org.). Comunicação – 2: humanismo e comunicação de massa. Trad. V. Chacon. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1970. p. 47-52.

Foto daqui e daqui.

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A rememoração de Roland Barthes por Italo Calvino

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Calvino não parecia muito faceiro nessa referência ao artista holandês Maurits Cornelis Escher. Foto: Gianni Giansanti

Italo Calvino fez um obituário após alguns dias do atropelamento do semiólogo Roland Barthes em 1980. O texto “Em memória de Roland Barthes” traz um relato de como foi o velório do acadêmico francês e fala de algumas principais ideias contidas no livro “A Câmara Clara”, lido pelo escritor italiano pouco antes do acidente fatal. Por mais que algumas visões dele sejam ingênuas, vou publicá-lo aqui pois não o encontrei disponível na internet.

[Esse texto me lembrou um artigo que encontrei, mas ainda não li, chamado “A questão da memória nos fotógrafos ficcionais de Italo Calvino, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar” em que são analisados três contos desses autores, respectivamente: “As aventuras de um fotógrafo” (1955), “A invenção de Morel” (1963), e “As babas do diabo” (1959). São histórias facilmente encontráveis na rede.]

Voltando ao texto de Calvino sobre Barthes, ele consta em “Coleção de areia”, uma coletânea com 38 crônicas divididas em quatro partes. A primeira seção se chama “Exposições. Explorações” e relata visitas a galerias da capital francesa; as duas seguintes abordam objetos e a última são reflexões de viagens ao Japão, México e Irã. Com essas análises curtas e praticamente semióticas “onde das ‘coisas vistas’ se abrem frestras de outras dimensões da mente” (p. 08) como ele declara na apresentação da obra, Calvino se assemelha ao amigo que recordou e homenageou.

 

EM MEMÓRIA DE ROLAND BARTHES
Um dos primeiros detalhes que se soube do atropelamento de 25 de fevereiro no cruzamento entre a rue des Écoles e a rue Saint-Jaques foi que Roland Barthes ficou desfigurado, tanto que ninguém dos que estavam ali, a dois passos do Collège de France, foi capaz de reconhecê-lo, e a ambulância que o recolheu conduziu-o ao hospital da Salpêtrière como um ferido sem nome (não levava documentos consigo), e assim ele permaneceu por horas no ambulatório, sem ser identificado. Em seu último livro, que eu tinha lido poucas semanas antes (La chambre claire, Note sur la photographie, Cahiers du Cinéma-Gallimard-Seuil), fiquei tocado sobretudo pelas belíssimas páginas sobre a experiência de ser fotografado, sobre o incômodo de ver o próprio rosto transformado em objeto, sobre a relação entre a imagem e o eu; assim, entre os primeiros pensamentos que me tomaram na apreensão por sua sorte se insinuava a lembrança daquela leitura recente, o liame frágil e angustiante com a própria imagem que fora lacerada de repente como se rasga uma fotografia.

Já em 28 de março, no caixão, seu rosto não estava absolutamente desfigurado: era ele, como tantas vezes o encontrei por aquelas ruas do Quartier, com o cigarro pendendo do canto da boca, no modo de quem foi jovem antes da guerra (a historicidade da imagem, um dos tantos temas de A câmara clara, se estende à imagem que cada um de nós faz de si na vida), mas estava ali, fixado para sempre, e as mesmas páginas daquele capitulo 5 do livro que fui reler logo em seguida agora só falavam disso, somente disso, de como a fixidez da imagem é a morte, e daí a resistência interna a deixar-se fotografar, e também a resignação. “É como se, terrificado, o Fotógrafo tivesse de lutar imensamente para que a Fotografia não seja a Morte. Mas eu, já objeto, eu não luto.” Uma atitude que agora parecia reverberar naquilo que se pudera saber dele durante o mês que passou na Salpètriere já sem poder falar.

(O perigo mortal se revelara imediatamente não nas fraturas cranianas, mas nas costelas. E então a angustia dos amigos era logo confrontada com outra citação: a da costela extirpada na juventude pelo pneumotórax e conservada numa gaveta, até quando decidiu desfazer-se dela, em Barthes par lui-même.)

Essas remissões da memória não são um acaso: é que toda a obra dele, agora percebo, consiste em constringir a impessoalidade do mecanismo linguístico e cognitivo a levar em conta a fisicidade do sujeito vivente e mortal. A discussão crítica sobre ela – já iniciada – se dará entre os defensores da superioridade de um ou de outro Barthes: o que subordinava tudo ao rigor de um método e o que tinha como único critério seguro o prazer (prazer da inteligência e inteligência do prazer). A verdade é que aqueles dois Barthes são apenas um: e na coexistência continua e variamente dosada dos dois aspectos está o segredo do fascínio que sua mente exerceu em muitos de nós.

Naquela manhã cinzenta eu vagava pelas ruas desoladas atrás do hospital em busca do anfiteatro, onde soube que de forma reservadíssima o corpo de Barthes partiria para o cemitério de província para juntar-se ao túmulo de sua mãe. E encontrei Greimas, que também chegara antecipadamente e que me contou de quando o conhecera em 1948, em Alexandria, no Egito, e o fizera ler Saussure e reescrever o Michelet. Para Greimas, inflexível mestre de rigor metodológico, não havia dúvida: o verdadeiro Barthes era o das análises semióticas conduzidas com disciplina e precisão, como no Sistema da moda; mas o verdadeiro ponto que o fazia discordar dos necrológios dos jornais era a insistência em tentar definir em categorias profissionais como filósofo ou escritor um homem que escapava a todas as classificações, pois tudo o que tinha feito na vida o fizera por amor.

Um dia antes, ao me informar pelo telefone a hora e o local daquela cerimônia quase secreta, François Wahl me falara do cercle amoureux de rapazes e moças que se formara em torno da morte de Barthes, um círculo quase ciumento e possessivo de uma dor que não tolerava outra manifestação que não o silêncio, O grupo atônico ao qual me juntei era formado em grande parte por jovens (no meio deles, poucas figuras famosas; reconheci o crânio calvo de Foucault). A placa do pavilhão não trazia a denominação universitária de “anfiteatro”, mas a de “Salles des reconnaissances“, e entendi que devia ser o necrotério. Por trás de cortinas brancas que circundavam toda a sala, de vez em quando saía um caixão carregado nos ombros de agentes funerários até o furgão e seguido por uma pequena família de gente miúda, mulheres baixinhas e idosas, cada família idêntica a do funeral precedente, como a ilustração pleonástica do poder uniformizador da moda. Para nós que estávamos ali por causa de Barthes, esperando imóveis e mudos no pátio, como seguindo a senha implícita de reduzir ao mínimo os sinais do cerimonial funerário, tudo o que se apresentava naquele pátio agigantava sua função de signo; eu sentia fixar-se, em cada detalhe daquele pobre quadro, a acuidade do olhar que se exercitara em descobrir frestas reveladoras nas fotografias de A Câmara Clara.

Assim, agora que o releio, esse livro me parece todo retesado no sentido daquela viagem, daquele pátio, daquela manhã cinzenta. Porque foi justamente de um reconhecimento entre as fotografias da mãe, morta havia pouco, que a meditação de Banhes partira (como é amplamente relatado na segunda parte do livro). Uma perseguição impossível da presença da mãe, reencontrada ao final numa foto dela menina, uma imagem “perdida, distante, que não se parece com ela; a fotografia de uma menina que não conheci” e que não é reproduzida no livro, porque nunca poderíamos compreender o valor que assumira para ele.

Livro sobre a morte, pois, assim como o anterior (os Fragmentos de um discurso amoroso) tinha sido sobre o amor? Sim, mas este também é um livro sobre o amor, como prova esta passagem sobre a dificuldade de evitar o “peso” da própria imagem, o “significado” a ser dado ao próprio rosto: “Não é a indiferença que tolhe o peso da imagem – não há nada que mais possa fazer de você um indivíduo penal, vigiado pela polícia, que uma foto ‘objetiva’ tipo ‘Photomaton’ -, mas é o amor, o amor extremo”.
Não era a primeira vez que Barthes falava sobre ser fotografado: no livro sobre o Japão (O império dos signos), uma de suas obras menos conhecidas porém mais ricas de finíssimas anotações, há a descoberta extraordinária, observando suas fotografias publicadas nos jornais japoneses, de um ar indefinivelmente nipônico no próprio aspecto: o que se explica pela maneira de retocar as fotografias usada habitualmente naquele país, que torna a pupila mais redonda e negra. Esse raciocínio sobre a intencionalidade que se sobrepõe à nossa imaginação — historicidade, pertencimento a uma cultura, como dizia antes, mas sobretudo intencionalidade de um sujeito que não somos nós e que usa nossa imagem como instrumento — volta em A câmara clara numa passagem sobre o poder dos truquages subtils da reprodução: ele reencontrou uma foto em que acreditara reconhecer sua dor por um luto recente na capa de um livro satírico contra ele, transformada num rosto desinteriorizado e sinistro.

A leitura do livro e a morte do autor ocorreram muito próximas uma da outra para que eu consiga separá-las. Mas é preciso que eu possa fazer isso para ser capaz de dar uma ideia do que o livro é: a aproximação progressiva a uma definição daquele tipo específico de conhecimento aberto pela fotografia, “objeto antropologicamente novo”.

As reproduções contidas no livro são escolhidas em função desse raciocínio que definiríamos “fenomenológico”: no interesse que uma foto suscita em nós, Barthes distingue um nível que é o do studium ou participação cultural na informação ou na emoção que a imagem envolve, e o nível do punctum, ou seja, o elemento surpreendente, involuntário e pungente que certas imagens comunicam. Certas imagens, ou melhor, certos detalhes de imagens, a leitura de Barthes faz das obras de fotógrafos famosos ou anônimos é sempre inesperada; são frequentemente detalhes físicos (mãos, unhas) ou das vestimentas cuja singularidade ele realça.

Contra as teorizações recentes da fotografia como convenção cultural, artifício, não realidade, Barthes privilegia o fundamento “químico” da operação: ser vestígio de raios luminosos emanados de algo que existe, que está ali. (E essa é a fundamental diferença entre a fotografia e a linguagem, que pode falar daquilo que não há.) Alguma coisa, na foto que estamos vendo, existiu e não existe mais: é isso que Barthes chama de tempo écrasé da fotografia.

Livro típico de Barthes, com seus momentos mais especulativos, nos quais parece que à força de multiplicar as malhas de sua rede terminológica ele não consegue mais desvencilhar-se dela, e suas inesperadas iluminações como lampejos de evidência que chegam feito dádivas surpreendentes e definitivas, A câmara clara contém desde as primeiras páginas uma declaração de seu método e seu programa de sempre, quando, renunciando a definir um “universal fotográfico”, ele decide levar em consideração apenas as fotos “que eu estava seguro que existiam para mim”.

“Nesse debate no fim das contas convencional entre a subjetividade e a ciência, eu chegava a esta ideia bizarra: por que não poderia haver, de algum modo, uma nova ciência para cada objeto, uma Mathesis singularis (e não mais universalis)?”

Essa ciência da unicidade de cada objeto que Roland Barthes continuamente margeou com os instrumentos da generalização científica e ao mesmo tempo com a sensibilidade poética aplicada na definição do singular e do irrepetível (essa gnosiologia estética ou eudemonismo do entender) é a grande coisa que ele – não digo nos ensinou, porque não se pode ensinar nem aprender – nos demonstrou que é possível: ou pelo menos que é possível buscá-la.

[1980]

CALVINO, Italo. Coleção de areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Tradução: Maurício Santana Dias. P. 81-86.

O Moinho é um mundo

Em São Sepé, interior do Rio Grande do Sul, uma das casas mais antigas é símbolo da imigração italiana na cidade, abrigando as primeiras atividades industriais e muitos entrecruzamentos de vida.

http://issuu.com/proa_revista/docs/proa_02_final [Páginas 32-35]

Texto: Marcelo De Franceschi

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E aí, tudo bem?
Como te foi de viagem? De Santa Maria até São Sepé são uns 60 km de distância, geralmente é tranquilo. O centro da cidade não fica muito longe, umas quatro quadras. Dá uns 200 metros. Pertinho né? Sim, aqui até parece um sítio pra fora, tem inclusive essa estradinha de chão. Não foi difícil de achar? A casa é meio escondida aqui no fim da rua, mas com o aqueduto, o formato de “L” da casa e o teto largo de telhas não tem erro. Ali dentro é que ficam os restos do engenho e do moinho e lá atrás fica o lajeado. Já te mostro.

Mas entra, não repara na bagunça. Brigado por ter vindo conhecer a casa. Sim, todo o resto do chão, exceto a cozinha e o banheiro, e do telhado da casa é de madeira. De noite tem um jeitão de filme de terror. É um silêncio: tu pisa e o pof pof pof ecoa por tudo. Mas nunca vimos nenhuma assombração. Bom é no verão quando venta e estendemos as cadeiras de praia ali na frente. Bem fresquinho.

É, ela é bem antiga, tem mais de 100 anos. Tinha o ano “1909” pintado em cima da entrada lá do canto, não nessa daqui do meio. Pra tu teres uma noção, também naquela ponta da casa havia uma placa azul com os dizeres “Campo Cristóvão Colombo” porque as ruas ainda não tinham nomes. Era puro mato. Só a Usina Elétrica, demolida neste ano, na frente da casa, servia como ponto de referência e a placa azul de identificação.

Aqui é a sala, tem esse conjunto de três sofás verdes antigos, inclusive essa máquina de costura que a minha vó usava pra arrumar as roupas dos meus tios. Quem comprou ela foi meu vô, Pedro Loch De Franceschi, com o dinheiro do trabalho de pipoqueiro, mas isso foi antigamente, quando existia o cinema de São Sepé, lá na Praça das Mercês. Essa parte aqui da casa não existia até o casamento dele com a minha avó, a Alda Bolzan, lá por novembro de 1945. Tem uma foto na Revista do Centenário de São Sepé que mostra bem como era – tinha outro galpão mais baixo entre o principal e a parte residencial.

Além dessa reforma, feira para abrigar o casal que se juntava, construíram a atual cozinha de concreto e uma nova roda hidráulica para o moinho. Os recém-casados passaram a morar aqui junto com os pais da Alda, meus bisavós José Bolzan e Catarina Roso Bolzan. Depois nasceram minha mãe e meus oito tios – todos criados nos cinco quartos daqui. Eram quatro homens e cinco mulheres.

A maioria deles veio à luz dentro de casa mesmo – só a minha mãe, Fátima, e o meu tio mais moço, o Jorge, nasceram no hospital. A minha tia mais velha, a Ieda, me falou rindo que, de tanto moralismo e pudor que os mais antigos tinham, não deixavam nem mesmo as mulheres verem a mãe parindo os irmãos em casa. “Tudo era feio, tudo não podia”, me contou sorrindo, nessa vozinha de vó querida.

A própria minha avó deve ter conhecido o meu avô de uma forma muito controlada, machista. Talvez num dos atendimentos do moinho aos agricultores da região, o vô, também descendente de imigrantes italianos, tenha aparecido para moer milho ou trigo e visto ela. Nas portas do galpão ali na frente, era a entrada do moinho e não havia balcão, os clientes eram recepcionados diretamente. Então, pode ser que tenha sido feito um acordo para uma união afetiva. Não se sabe ao certo por que eles nunca falaram disso, né? Vai ver tinham vergonha.

O meu vô era magro e alto, tipo jogador da Azzurra, a seleção da Itália, e a vó Alda era bem gordinha, quieta mas atenciosa. O vô trabalhava numa colônia italiana a uns 30 km de São Sepé. Ele era um dos oito filhos do italiano Antônio Giuseppe De Franceschi, que chegou ao Brasil no fim de 1895, e da descendente de alemães Verônica Loch.

A mãe lembra que o vô Pedro acordava os filhos mais novos às seis da manhã para irem à escola das freiras e os mais velhos para ajudar no moinho.
– Tá na hora! Vamo levantar!, gritava depois de abrir essas portas duplas dos quartos.
De tarde, os que estudavam de manhã tinham que ajudar nos trabalhos, às vezes seguindo até dez horas da noite.

Bonita a vista do pátio daqui da janela, né? Têm os varais, as duas parabólicas, os cachorros, a horta e ali à direita é o bosque de laranjeiras. Diz a mãe que foi o vô que plantou. Também tem pé de abacate, pera, butiá, ameixa, uva e caqui. Ali à esquerda, junto com a casa, fica o galpão de teto de zinco com churrasqueira que a gente usa nos domingos ou quando tem alguma visita ou aniversário. Colado naquele espaço, tem o galinheiro e os chiqueiros com os bichos que o pai e mãe criam, que eu e meus irmãos também ajudamos a cuidar.

Quer ir lá ver os porquinhos depois? É só descer a escada de madeira que sai da cozinha ali no galpão de zinco. A água do lajeado já tapou toda a escada, acredita? É que tiveram algumas enchentes, tão fortes que taparam quase toda essa área, encheram os porões, e os animais tinham de ser soltos pra não se afogarem. Quase que a água entrava dentro de casa. Depois a gente desce ali, onde dá acesso à beira do lajeado e ao aqueduto de tijolos.

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Ah, aqui embaixo do assoalho desse quarto chegou a funcionar uma fábrica de gasosa, sabia? É gasosa, um antigo refrigerante, do tempo do guaraná de rolha. Tu vês, não ofereciam só a moagem de milho e trigo, mas também fabricavam e vendiam gasosa de limão e de guaraná. O porão era o lugar ideal pra armazenar as garrafas: refrigerado, úmido, abrigado do sol naturalmente. A fórmula da bebida foi perdida, mas dizem que veio da Alemanha, já que os primeiros donos daqui eram alemães. Tem uma gravação de um tio-avô dizendo que faziam um “xarope”, acrescentava-se essência de limão, mais um líquido chamado “espumantina”, e água e açúcar para formar a gasosa.

O nome do comércio era “Fábrica Alcalina”, depois passaram a chamar de “Fábrica de Gasosa Bolzan e Irmão”. Uma senhora já aposentada daqui da cidade, a dona Elmira Monteiro, de uns 88 anos, me falou que nunca tomou gasosa como a produzida aqui. Ela contou que, naquele tempo, os jovens, ao invés de tomarem chimarrão, tomavam gasosa. Compravam, iam e sentavam nas pedras do lajeado que era limpo. Já era um ponto turístico da cidade. Hoje, não tem como, está muito poluído, nos dias de chuva a água escurece muito por causa do esgoto que é jogado direto, e até fede um pouco. Sendo muito otimista, eu acho que daqui uns 100 anos despoluam e façam um saneamento na cidade toda.

A gasosaria só encerrou as atividades uns anos depois de meu bisavô, o José, ter adquirido a casa. Ele possuía uma serraria na colônia dele, mas queria ganhar mais e decidiu vir pra São Sepé com a família. Naquela época, a cidade era um povoado menor do que é agora. Veio ele, a mulher, dois filhos e uma filha, a Alda, em abril de 1927. Vendido o negócio na colônia, ele chegou e comprou o moinho colonial que pertencia à descendente de imigrantes alemães Catharina Carolota Felícia Kruel, casada com José Claro Monteiro, dona também de boa parte dessa região central da cidade. Ali no galpão ainda tem uns baldes e um garrafão verde, grande mesmo, de meio metro, que se acredita serem da época da gasosaria, vamos ali dar uma olhada?

Dá pra ver que as tábuas originais do chão estão bem deterioradas – tem várias madeiras preenchendo as partes podres que já quebraram. O telhado também tem várias goteiras, ali tem umas frestas entre as telhas, olha. Mas o pai e a mãe já fizeram uma baita reforma este ano trocando uma parte. Os gatos que costumam andar nas toras que sustentam o teto, caçando uns ratos de vez em quando.

Aqui funcionavam as engrenagens do moinho, que acabou dando nome ao lajeado, e lá no fundo tem as máquinas do engenho. Do moinho, eram essas quatro rochas grandes em forma de círculo aí que trituravam os grãos de milho e trigo.
Os agricultores da região, após períodos de safra, vinham a cavalo, de carroça ou de carreta de boi procurando os trabalhos de moagem. Teve casos de agricultores que traziam a carreta cheia e ficavam uma semana esperando para irem embora. Meus tios botavam os sacos numa daquelas duas balanças ali, tudo à mão; pesavam e escreviam com um pincel de lata enrolado com crina de cavalo: ‘José da Silva’ tantos quilos. Pelo que eles me contaram, um saco de trigo de 60 kg levava uma hora para ser moído, dando em torno de 42 kg de farinha. De milho, já levava uma hora e meia e rendia uns 50 kg.

Do lado de fora que ficavam a roda, que tinha uns seis metros de altura, mais ou menos. A água vinha no aqueduto, caía na roda e movia tudo isso. Só que a roda de madeira não girava 24 horas. Existia um sistema de “calha móvel”, que segurava a água para que não entrasse no aqueduto. No forte do verão, quando meus tios queriam, seguravam a água baixando uma tampa, uma tábua controlada por um arame que ficava disponível aqui dentro, enrolado. Além dessa tábua de contenção, havia outra parte de madeira no fim da calha, que permitia deixar a água cair na roda ou não, para assim parar o movimento da roda.

O vô Pedro só foi assumir a gerência do moinho lá por 1958, quando o vô José teve problema no coração – o diagnóstico da época pras doenças cardiovasculares – não podendo fazer qualquer esforço físico. Sem poder trabalhar, ele se mudou para outra casa, ali na esquina, e foi junto da mulher, Catarina Bolzan. Daí o vô Pedro teve que largar o serviço de pipoqueiro, e vir moer o grão.

De moagem em moagem, a superfície entre as duas pilhas iam se desgastando e, para que voltassem a esmerilhar bem os cereais, as pedras tinham que ser talhadas, ou “picadas”, com uns martelinhos. Nisso, pra levantar esse peso todo, as de cima tinham que ser levantadas girando umas hastes que faziam subir um gancho, encaixado em furos laterais. Imagina a trabalheira. A vida era muito mais difícil.

Pra se aquecer no inverno tinha o fogão à lenha da cozinha. Antes do chuveiro elétrico, tomavam banho de bacia, com a água que buscavam de balde ali na Usina Elétrica. Diz que era limpa e saía quente do motor-gerador a óleo. A água só foi ser encanada aqui em 1970, quando foram na Corsan pedir uma licença, e tiveram que fazer um desvio para colocar os primeiros canos da casa. Antes disso, o abastecimento era pelo poço lá do pátio, que está coberto.

As poucas coisas que havia pra se entreter era o rádio na sala – onde ouviam Beatles, Rolling Stones, Roberto Carlos e Jovem Guarda – e as matanças dos suínos. Um evento pra eles ajudarem no corte da carne, na fabricação da linguiça, banha e torresmo.

Alguns dos meus tios mais velhos tiveram que trancar os estudos e só terminarem um pouco depois. Fazer faculdade só puderam mesmo depois dos 20 e poucos anos. Uma tia minha bem louquinha, a Leda, que foi a primeira aprovada no vestibular da UFSM. Foi pro curso de História, em 1962, mas aí o vô não queria que ela fosse para a outra cidade. Ela insistiu tanto e se foi, mesmo sabendo que não contaria com o apoio paterno. A vó Alda que “pegava” um pouco do dinheiro do vô de vez em quando pra ajudar. Com a conquista, outros tios meus também foram estudar mais, outros ficaram.

Essas aqui são as antigas máquinas do engenho elétrico que descascava arroz. Dentro desses armários aí ficavam os geradores. Na janela, tem umas tábuas que dão pra fora naquela parte de vidro que não abre. Por ali, saíam as cascas de arroz. Mas naquela época não existia essa uma preocupação com o meio ambiente. Inclusive, da antiga usina de energia elétrica daqui da frente, saíam baldes de óleo queimado e era tudo largado no lajeado.

O meu tio mais velho, o Adenir, já com uns 60 anos, soube dizer de cabeça que o engenho chegou em 22 de fevereiro de 1961, de São Paulo. Ele decorou de tanto ele ver a data escrita numa das madeiras das máquinas. Os valores dos serviços do engenho ele não conseguiu lembrar, mas tinha uma proporção de troca: de 100 quilos de arroz em casca, o produtor levava 60 quilos beneficiados e ainda pagava pelo trabalho, claro. As máquinas do engenho funcionaram até mais ou menos o ano que eu nasci, em 1989.

Antes disso, o tio e o vô ainda resolveram oferecer também o serviço de colheita de arroz e de trigo com umas três máquinas agrícolas próprias que eram guardadas lá naquela ponta da casa, onde tinha um galpão gigante de madeira e teto de zinco.

Depois que o vô se aposentou e vendeu as máquinas, ele deixava uma figura folclórica de São Sepé dormir lá, meio que num cafofo: o “Pufa”. Era um senhor já velho, negro, morador de rua, mas que nunca tinha nos incomodado. Quando a gente se mudou pra cá, em 2001, levamos as coisas dele pra um cômodo ali na antiga usina elétrica. Ele gostou e viveu ali até 2012, quando deu um incêndio e ele morreu. Bota coisa braba!

No outro lado dessa porta de madeira, que trancamos de noite, é a serraria do Clóvis e do Marcos Francisco Becker Gonçalves. Eles são irmãos e alugam aí desde 1993. Volta e meia, o vô Pedro se sentava em um banquinho na porta de entrada da oficina e passava a tarde inteira conversando, contado histórias de dificuldades dos tempos das lavouras de trigo da colônia dele e de situações engraçadas da vida, como pescarias e garimpos. E ainda fazia umas indiadas. Tipo, ele construiu um forno para fazer carvão num terreno aqui perto e perdia o controle do fogo e os bombeiros vinham, e criou uma vaca aqui no porão e abelhas no pátio, de vez em quando dava uns enxames que não podíamos chegar perto, isso nos anos 1990. Eu lembro um pouco.

A minha avó materna, a Alda, eu não cheguei a conhecer. Ela morreu em outubro de 1990, no segundo AVC dela. O vô morreu da mesma causa, em janeiro de 2000. Um ano e um mês após isso, a gente – meu pai, o Hélio, a falecida vó Joaquina, e os meus irmãos, o Gabriel e o Hélio Filho – se mudou pra cá porque a minha mãe, a Fátima, ficou com a casa. A gente morava numa casa bem legal também ali na esquina, onde o vô José e a vó Catarina moraram depois de aposentados, que o pai e a mãe compraram – lembro deles fazendo contas, calculando quanto iam ter que desembolsar pra não pagar mais aluguel.
Mas agora vamos ali fora que vou te mostrar o aqueduto melhor.

Massa, né? Lembram os Arcos da Lapa do Rio de Janeiro, só que de uma linha só, menor, e com os tijolos expostos. São nove voltas mais a última parte que é quadrada. A base de metade está bem aterrada, que nem os Moais da Ilha de Páscoa, são altos como aparece numa foto antiga. Quem construiu foi o vô José, pra trocar o material da antiga calha. Sim, o aqueduto anterior era de madeira. Só que vazava muita água, e vai ver dava mais problema pra consertar.

Cansado disso, ele resolveu erguer os arcos. Pelas fotos, ele era um sujeito parrudo, grande. Primeiro foi fazendo os moldes de madeira, o que tinha noção, já que fazia alguns móveis como armários, cristaleiras, mesas e outras coisas. Claro que ele começou pelo fim, a partir da casa, indo até a ponta por onde entrava a água. O tempo para colocar tijolo por tijolo não deve ter sido muito, uns seis meses que é uma temporada de entressafra pra não ter tido prejuízo. O trabalho ficou tão bom que fizeram aquela placa de concreto ali do meio marcando o dia do término em alto relevo, pra comemorar: 04/03/1937.

Devia ser bom brincar aqui quando corria água que nem meus tios faziam, viam de biquinho e só paravam antes de cair na roda. A água vinha do lajeado através de uma vala que começava numa pequena barragem de concreto, mais lá em cima, também feita pelo vô José. Dizem os mais antigos que o açude formado pela barragem e o resto do curso da água, na época do moinho colonial, era o piscinão de São Sepé nas tardes de verão. O povo ia pra lá se refrescar e era possível pescar nas águas ainda limpas na época. O lugar também era o ganha-pão de umas dez lavadeiras de roupas, que prestavam o serviço para várias famílias sepeenses. Cada uma tinha sua pedra no lajeado e depois de esfregarem, deixavam os tecidos ali pra “quarar”, sem medo de serem roubadas. A paisagem devia ser muito legal com a roda do moinho.

A roda só foi parar de girar por volta de 1977. Não só por causa da poluição e da diminuição do curso d’água do lajeado, mas também pelo uso constante, o material foi se deteriorando e o vô Pedro continuou apenas com as máquinas do engenho de arroz, e foi desmanchando a roda aos poucos, conforme iam apodrecendo as tábuas. Seria sensacional se um dia a reconstruíssemos. Eu vejo rodas em eventos turísticos e me pergunto se não daria pra construir uma aqui.

Pois é, é complicado. Era basicamente isso. Não quer ficar mais? É cedo, tens certeza? Bom, tu que sabes. Valeu por visitar a minha fazenda, a minha chácara. Pra mim é como um refúgio – um dos melhores lugares pra descansar. Te cuida e apareça sempre que quiser.

Águas futuras

Todos os filhos de Pedro De Franceschi gostariam que o patrimônio, junto com a história da cidade, fosse conservado. Entretanto, reformas e restaurações custariam muito caro. Eles ainda aguardam pela Associação Italiana de São Sepé, a AISS, criada em 2003. A organização almeja adquirir a casa para restaurá-la, torná-la sua sede e mantê-la como um museu, mas não há data definida para sua efetivação. “Desde a fundação da Associação, é o nosso sonho. É um patrimônio italiano único da nossa região que as autoridades deveriam manter, mas ninguém dá bola”, declara o membro da AISS, Elson Giuliani. Ele adianta que pretendem buscar recursos no governo municipal e estadual.

Um projeto de reforma já foi elaborado por Gabriele Rech Santos em 2012 no trabalho de conclusão de curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Franciscano (Unifra). Segundo ela, a primeira etapa para que o projeto se torne realidade, deveria ser a despoluição do córrego do lajedo, porque se tornaria um lugar público, ficando muito mais fácil das pessoas investirem e frequentarem o local. “Todas as cidades deveriam preservar a arquitetura que conta sua historia, infelizmente não é isso que acontece em São Sepé e em varias outras cidades”, diz Gabriele.

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Vigília dos familiares da tragédia de Santa Maria em frente ao MP

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Foto: Marcelo De Franceschi

Há uma semana familiares de vítimas da tragédia da Boate Kiss estão em vigília em frente a sede do Ministério Público de Santa Maria. Em pé ou sentados em cadeiras de praia, em média 15 integrantes da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) e dos movimentos Santa Maria do Luto à Luta e das Mães de Janeiro pressionam a reabertura do inquérito civil contra agentes públicos.

“O pessoal estava com medo de uma possível nova ocupação, mas se assustaram a toa”, diz Flávio Silva, integrante do Luto à Luta. “É uma vergonha termos que estar na frente do Ministério Público protestando por um serviço de melhor qualidade dos promotores. Além de sofrer pela perda dos nossos filhos, termos que enfrentar esse tipo de blindagem”, ele completa.

Às 8h da manhã, são pendurados os cartazes com fotos das vítimas e estendidas faixas com mensagens. Para que os servidores não se esqueçam do motivo da vigília, uma sirene do mega fone é soada a cada hora em direção a porta do prédio público. Ainda assim, funcionários do MP permitem a utilização dos banheiros do edifício e disponibilizam o aquecimento de água.

Os familiares ficam inclusive ao meio-dia, almoçando em uma mesa montada para fazer e servir lanches, junto de um isopor para água e refrigerantes. “A nossa praça de alimentação fica no outro lado da rua. Volta e meia passa alguém aqui e deixa sanduíche ou bebidas. Esse apoio é bastante importante”, afirma Flávio Silva. Às 18h, tudo é recolhido e colocado em um reboque para, no outro dia, recomeçar a espera por justiça.

“Pretendemos ficar aqui por tempo indeterminado. Tempo é o que mais temos. Se não surgir efeito essa nossa manifestação, vamos partir para algo mais acirrado”, finaliza Flávio. Nesta quarta-feira, dia 30, haverá uma reunião com o subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Jurídicos, Ivory Coelho Neto, às 16h no mesmo local, na alameda Montevideo, 293.

Texto e fotos: Marcelo De Franceschi

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Feriado? Não para todos

No dia em que a maioria das pessoas folga, profissionais relatam como é a rotina do trabalho que exige serviço

As médicas Maria de Lourdes e Júlia Trindade se veem mais no plantão do que em casa Foto Gilvan Peters/A Razão

Nem todo mundo pôde descansar nesse feriado de Sexta-Feira Santa. Trabalhadores de serviços básicos, como saúde, segurança e transporte, dentre outros, precisaram cumprir o dever de atender a população.

É o caso de duas médicas da recém inaugurada Unidade Pronto Atendimento (UPA). A pediatra Maria de Lourdes Trindade, 61, e a clínica geral, Júlia Pinto Trindade, 25, são mãe e filha e estavam atendendo na tarde de ontem. “Nós médicos não temos feriado, não tem diferença entre os dias. Já quando tu fazes estágio, antes de te formar, tu trabalhas no sábado e no domingo”, explica Maria de Lourdes, médica há 25 anos.

Para Júlia, o ritmo de trabalho é puxado por não haver descanso. “Estamos sempre alerta e sempre com o ouvido ligado para alguma sirene ou paciente já internado”, relata. Mesmo assim, ela afirma já estar acostumada com a adrenalina e também gostar dos dias reservados para alguma comemoração. “O movimento é mais calmo, a remuneração é melhor e porque tem pouca gente que quer”, conta. Com a rotina corrida, as duas chegam a ter mais contato no espaço hospitalar. “A gente se vê mais no plantão do que em casa, mas sempre tentamos fazer os mesmo horários e locais”, diz sorridente Júlia.

A segurança também não pode diminuir nos dias de folga. Os vigilantes do Pronto-Socorro do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) Rodrigo Rossatto dos Santos, 27, e Patric Rocha de Oliveira, 32, confessam que se fossem contar o que atendem todos os dias poderia resultar num livro. “Cada feriado tem a sua particularidade. Hoje mesmo veio uma pessoa com um espinho de peixe preso na garganta”, diz Patric, há dois anos trabalhando no local. “É bom porque é uma rotina de domingo, então o fluxo é bem menor”, constata Rodrigo, há três no hospital.

Segundo eles, depois da sexta-feira, ainda vão pegar o domingo de trabalho. “Geralmente, de manhã é bem tranquilo, e de tarde é mais movimentado. De dia, dá muitos pacientes psiquiátricos, em que atuamos na contenção de sustos”, relata Patric. Além do feriado de Páscoa, costumam trabalhar no Natal, Ano Novo e Carnaval. “Tem muitos casos em que é preciso conter um paciente alcoolizado para fazer uma sutura. Não por estar desesperado, mas por não sentir dor nenhuma e achar que a intervenção médica é desnecessária”, revela Patric.

Outro serviço que não pode parar é o de transporte . Para o motorista de ônibus Carlos Adolfo Kuster, 33, a data de folga da maioria é como outra qualquer. “Feriado ou domingo é tudo igual, tendo a recompensa está tudo bem”, diz Kuster, há nove anos no ofício. O turno varia de 7h20 chegando até 9h, e os horários são escolhidos. “Eu prefiro de dia para estar com a família”, revela. De acordo com ele, o ritmo de trabalho é muito mais tranquilo. “Até hoje nunca tive acidente. Gosto muito do que faço e se eu pudesse trocaria por dias normais”, afirma.

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Ceroula, a segunda pele no inverno

Marcelo De Franceschi

Só a calça jeans não tem dado conta desse frio de congelar graxaim. Está na hora e temperatura de mostrar ter segurança e passar a usar algo considerado ‘frescura’ ou ‘cafona’ por alguns abobados: a ceroula. É a melhor peça para proteger as pernas no ar glacial da manhã e da noite.

Não é uma roupa tão cara. Custa pouco mais que uma cueca boxer, com preços variando em média entre R$ 20 e R$ 40. Discreta, não faz volume sob as roupas e, devido à elasticidade da confecção de algodão e elastano, não interfere nos movimentos. Há uma profusão de desenhos, mas não queira parecer um palhaço com algumas. A dica é usar as de visual básico de cores preta, branca, cinza e por aí vai.

A origem das ceroulas provavelmente esteja nas meias que os homens usavam na primeira metade do milênio, que cobriam o corpo da cintura para baixo. No livro “Por baixo do pano”, a historiadora de moda inglesa Rosemary Hawthorne conta que os calções, ou ceroulas, eram peças exclusivas do guarda roupa masculino até o século XVIII e as mulheres que ousassem usálos eram consideradas “criaturas libertinas e de moral duvidosa”.

Atualmente, a ceroula também tem sido chamadas de cuecas leggings. Em inglês bruto, são denominadas long underwear ou thermal underwear, ou popularmente como long johns. Em fevereiro deste ano, o superstar soccer David Beckham, que desencanou dos tempos de “metrossexual”, disse em entrevista a revista GQ que a peça de underwear é a que ele mais gostava de usar, pelo aquecimento e conforto. “As ceroulas são old school”, afirmou o craque do Los Angeles Galaxy.

Em tempos de calça skinny, com modelagem um pouco ajustada à real circunferência das pernas, não há motivo para se envergonhar. A vestimenta é como a roupa de borracha do surfista, ou a roupa de baixo do alpinista. Para o homem estudante e trabalhador, a peça é a segunda pele contra o frio.

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MC da periferia lança EP

Marcelo De Franceschi

“Cá Entre Nóiz” é o primeiro Extended Play (EP) da MC santa-mariense Flavinha Manda Rima, e foi lançado em abril deste ano. “Eu participo há uns dez anos do movimento Hip Hop e canto há uns oito anos”, diz a estudante de pedagogia da UFSM, Flávia Sortica Giacomini, 31.
Flavinha mora no Bairro Tancredo Neves e é uma das mais proeminentes artistas da periferia de Santa Maria. “Canto junto com o Grupo Admirável Minas do Rap, mas resolvi lançar sozinha porque as letras já estavam mais maduras e costumamos ter um trabalho na praça para ser mais reconhecidos”, afirma.

As cinco faixas inéditas que compõem o lançamento foram gravadas no Estúdio Câmara de Gás, em Porto Alegre, de forma totalmente independente durante cerca de dois meses, depois que ela fez contato com a gravadora durante o Fórum Social Mundial.
“Como a maioria dos MCs, são músicas muito autobiográficas. Falo da minha experiência como mãe, de uma história com um amigo, da visão do amor mas sem submissão, do orixá Bará Agelu da religião candomblé, e da liberdade que é vista por nós como uma construção e não uma concessão”, explica Flavinha.

Com múltiplas conexões, Flavinha também faz parte da Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop, na qual é discutida a participação da mulher no movimento Hip Hop, e do Coletivo de Resistência Artística Periférica (Co-Rap), que promove práticas culturais do hip-hop nas periferias.
“Neste, nós temos dois carros chefes: o Hip Hop na Pracinha, que já teve sete edições e é uma atividade mais de verão, sem lugar fixo com apresentações, palestras sobre o movimento e políticas públicas e microfone aberto para a comunidade; e o Guerrilha da Paz, cuja 8ª edição vai ser na Escola Municipal Aracy Barreto Sacks, na zona leste, dia 30 de junho”, revela Flavinha.

Entre outros planos, ela vai levar suas rimas para Porto Alegre, ou para outros lugares. “Nos dias 22, 23 e 24 de junho, vamos divulgar e participar dos shows da 6ª Semana Municipal do Hip Hop de Porto Alegre. E aonde me convidarem, né?”, avisa. Para o futuro próximo, ela pretende gravar um disco com o grupo Admirável Minas do Rap até o final do ano e produzir uma coletânea com os Grupos do CoRap – sendo eles o Rima Suprema, o Conexão Zona Oeste, o MC Magrão, o Admirável Minas do Rap, e o grafiteiro Vico Pax.

Além do EP ter sido disponibilizado na internet, ele também pode ser encontrado nos eventos do Co-Rap por R$ 5. Depois do primeiro lançamento no dia 13 de abril na Catacumba do Diretório Central dos Estudantes, a próxima divulgação vai ocorrer no Beco da Leste neste sábado a partir das 20h, juntamente com o pré-lançamento do EP do Grupo Rima Suprema, daqui de Santa Maria. Até lá, o “Cá entre nóiz” pode ser baixado no link www.bit.ly/FlavinhaEP.